Recebido: 16 de Março de 2026
Publicado: 26 de Maio de 2026
O PROBLEMA DO MAL EM SANTO TOMÁS DE AQUINO: PERSPECTIVAS FILOSÓFICAS E TEOLÓGICAS
THE PROBLEM OF EVIL IN SAINT THOMAS AQUINAS: PHILOSOPHICAL AND THEOLOGICAL PERSPECTIVES
Felipe Alan Romancini [1]
RESUMO
O presente artigo analisa o problema do mal no pensamento de Santo Tomás de Aquino, considerando suas perspectivas filosóficas e teológicas a partir da tradição cristã medieval e da influência aristotélica. O tema justifica-se pela permanência do debate acerca da existência do mal em um mundo criado por um Deus sumamente bom e perfeito, questão que continua relevante tanto para a filosofia quanto para a teologia contemporânea. O problema de pesquisa busca compreender de que maneira Santo Tomás de Aquino explica a existência do mal sem negar a bondade e a perfeição divinas. O objetivo geral consiste em analisar a concepção tomista do mal, destacando seus fundamentos metafísicos, morais e teológicos. A relevância do estudo encontra-se na contribuição para a reflexão ética, religiosa e filosófica sobre a condição humana e a liberdade. A metodologia utilizada baseia-se em pesquisa bibliográfica, com abordagem qualitativa e análise de obras de Santo Tomás de Aquino e comentadores contemporâneos. Os resultados demonstram que, para Tomás de Aquino, o mal não possui existência própria, sendo compreendido como privação do bem, decorrente da limitação das criaturas e do livre-arbítrio humano. Conclui-se que a filosofia tomista oferece uma interpretação racional e teológica capaz de harmonizar a existência do mal com a perfeição divina, mantendo a coerência entre fé e razão.
Palavras-chave: Mal. Filosofia. Teologia. Santo Tomás de Aquino. Livre-arbítrio.
ABSTRACT
This article analyzes the problem of evil in the thought of Saint Thomas Aquinas, considering its philosophical and theological perspectives based on the medieval Christian tradition and Aristotelian influence. The theme is justified by the continuing debate regarding the existence of evil in a world created by a supremely good and perfect God, a question that remains relevant to both philosophy and contemporary theology. The research problem seeks to understand how Saint Thomas Aquinas explains the existence of evil without denying divine goodness and perfection. The general objective is to analyze the Thomistic conception of evil, highlighting its metaphysical, moral, and theological foundations. The relevance of the study lies in its contribution to ethical, religious, and philosophical reflections on the human condition and freedom. The methodology is based on bibliographic research, using a qualitative approach and the analysis of works by Saint Thomas Aquinas and contemporary commentators. The results demonstrate that, for Aquinas, evil does not possess its own existence but is understood as a privation of good, resulting from the limitations of creatures and human free will. It is concluded that Thomistic philosophy offers a rational and theological interpretation capable of reconciling the existence of evil with divine perfection, maintaining coherence between faith and reason.
Keywords: Evil. Philosophy. Theology. Saint Thomas Aquinas. Free will.
1 INTRODUÇÃO
A reflexão acerca do problema do mal acompanha a humanidade desde os primórdios da filosofia e da religião. Ao longo da história, diferentes pensadores buscaram compreender como o mal pode existir em um mundo criado por um Deus considerado absolutamente bom, justo e perfeito. Essa questão ultrapassa os limites do pensamento teórico, alcançando também a experiência humana cotidiana, marcada pelo sofrimento, pelas injustiças e pelas limitações da condição humana. Nesse contexto, o pensamento de Santo Tomás de Aquino apresenta-se como uma importante contribuição para a compreensão filosófica e teológica do mal.
Durante a Idade Média, a filosofia e a teologia mantinham uma relação profundamente integrada, buscando harmonizar a razão humana com os princípios da fé cristã. Foi nesse cenário que Santo Tomás de Aquino desenvolveu sua obra, influenciado principalmente pela tradição aristotélica e pelos ensinamentos da Igreja. Sua produção intelectual procurou demonstrar que fé e razão não são opostas, mas complementares na busca pela verdade. Assim, o problema do mal passou a ser analisado não apenas sob uma perspectiva religiosa, mas também racional e metafísica (GILSON, 2006).
A discussão sobre o mal possui relevância permanente porque toca diretamente questões fundamentais da existência humana. O sofrimento, a dor, os conflitos e as imperfeições do mundo despertam questionamentos sobre a presença divina e o sentido da vida. Muitas vezes, a existência do mal é utilizada como argumento contra a ideia de um Deus perfeitamente bom. Por isso, compreender como Santo Tomás de Aquino aborda essa problemática permite aprofundar o debate filosófico e teológico ainda presente na contemporaneidade.
Para Santo Tomás de Aquino, o mal não possui existência própria ou substancial. Diferentemente do bem, que corresponde à plenitude do ser, o mal é entendido como ausência ou privação do bem. Essa interpretação afasta a concepção dualista que atribui ao mal uma origem independente ou equivalente ao bem. Dessa forma, Aquino sustenta que tudo aquilo que existe, enquanto criação divina, possui bondade em sua essência, ainda que apresente limitações decorrentes da própria condição criada (AQUINO, 2003).
A compreensão tomista do mal está profundamente vinculada à metafísica do ser. Segundo Aquino, Deus é o ser perfeito e absoluto, fonte de toda bondade existente no universo. As criaturas, por sua vez, são limitadas e imperfeitas, justamente por não possuírem a plenitude divina. Assim, o mal surge como consequência natural dessas limitações e não como algo criado diretamente por Deus. Essa interpretação busca preservar a perfeição divina sem ignorar a realidade do sofrimento humano.
Outro aspecto relevante na análise tomista refere-se ao livre-arbítrio humano. Para Santo Tomás de Aquino, Deus concedeu ao ser humano a liberdade de escolher entre diferentes ações. Entretanto, o uso inadequado dessa liberdade pode conduzir ao pecado e às práticas moralmente más. Nesse sentido, o mal moral decorre das escolhas humanas e não da vontade divina. Essa perspectiva atribui responsabilidade ética ao indivíduo e reforça a importância das virtudes na vida humana.
Além do mal moral, Aquino também discute o chamado mal físico, relacionado às dores, doenças e desastres presentes na natureza. Em sua visão, esses males fazem parte da ordem natural do universo e decorrem da limitação das criaturas materiais. Ainda que causem sofrimento, não anulam a bondade da criação divina. Pelo contrário, dentro da perspectiva tomista, até mesmo as imperfeições contribuem para a harmonia e a totalidade do universo criado por Deus (AQUINO, 2001).
A relação entre filosofia e teologia no pensamento tomista torna-se evidente ao analisar o problema do mal. Aquino utiliza argumentos racionais para explicar questões tradicionalmente associadas à fé. Isso demonstra sua tentativa de construir uma síntese entre conhecimento filosófico e doutrina cristã. Tal característica faz de sua obra uma referência importante não apenas para os estudos teológicos, mas também para a tradição filosófica ocidental.
A influência de Aristóteles no pensamento de Santo Tomás de Aquino também merece destaque. Ao incorporar conceitos aristotélicos, como ato e potência, essência e existência, Aquino desenvolveu uma interpretação original sobre a realidade e sobre a presença do mal no mundo. Essa síntese filosófica permitiu uma compreensão mais sistemática da criação, da natureza humana e da relação entre Deus e o universo.
A relevância do tema justifica-se ainda pela permanência das discussões sobre ética, liberdade e sofrimento na sociedade contemporânea. Em um mundo marcado por crises sociais, violência e desigualdades, o problema do mal continua despertando inquietações filosóficas e religiosas. O pensamento de Santo Tomás de Aquino oferece elementos importantes para refletir sobre responsabilidade moral, dignidade humana e sentido da existência.
Diante disso, este artigo busca analisar o problema do mal em Santo Tomás de Aquino, considerando suas perspectivas filosóficas e teológicas. Pretende-se compreender como o autor explica a existência do mal sem comprometer a bondade e a perfeição divinas. Além disso, busca-se investigar os fundamentos metafísicos e morais presentes em sua concepção acerca do tema.
A metodologia utilizada neste estudo baseia-se em pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa. Serão analisadas obras de Santo Tomás de Aquino, especialmente aquelas relacionadas à metafísica, à ética e à teologia, bem como contribuições de estudiosos contemporâneos sobre o pensamento tomista. A investigação procura estabelecer uma interpretação crítica e reflexiva sobre o problema do mal dentro da tradição filosófica cristã.
Desta forma, espera-se demonstrar que a concepção tomista do mal permanece atual e relevante para os debates filosóficos e teológicos contemporâneos. Ao compreender o mal como privação do bem e consequência das limitações das criaturas e do livre-arbítrio humano, Santo Tomás de Aquino apresenta uma interpretação racional e coerente capaz de harmonizar fé e razão. Dessa maneira, seu pensamento continua contribuindo significativamente para a compreensão da condição humana e das questões fundamentais relacionadas à existência do mal no mundo.
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2 DESENVOLVIMENTO
2.1 O Problema do Mal em Santo Tomás de Aquino: Uma Análise Filosófica e Teológica
O debate acerca do problema do mal ocupa lugar central na tradição filosófica e teológica ocidental. Desde a Antiguidade, pensadores buscaram compreender como a existência do mal pode ser conciliada com a ideia de um Deus infinitamente bom e perfeito. Nesse contexto, Santo Tomás de Aquino desenvolveu uma interpretação fundamentada na razão e na fé cristã. Para o autor, “o mal não é um ser, mas a privação de um bem que deveria existir” (AQUINO, 2005, p. 112). Essa concepção tornou-se um dos pilares da filosofia escolástica medieval.
A reflexão tomista sobre o mal está profundamente associada à influência da filosofia aristotélica. Santo Tomás procurou harmonizar o pensamento de Aristóteles com os princípios do cristianismo, demonstrando que a razão humana poderia colaborar na compreensão das verdades divinas. Segundo Aquino, “a verdade da razão não pode contradizer a verdade da fé” (AQUINO, 2001, p. 54). Assim, sua análise sobre o mal parte tanto de fundamentos metafísicos quanto teológicos.
No pensamento tomista, Deus é concebido como o ser supremo, perfeito e fonte de toda bondade existente. Dessa forma, seria incoerente afirmar que o mal possui origem direta em Deus. Aquino afirma que “tudo o que existe, enquanto ser, é bom” (AQUINO, 2005, p. 98). Isso significa que o mal não possui substância própria, existindo apenas como ausência ou deficiência do bem. Essa interpretação diferencia-se das correntes dualistas que entendiam o bem e o mal como forças equivalentes.
A noção de privação do bem é um dos conceitos centrais da teoria tomista sobre o mal. Para Santo Tomás de Aquino, o mal não pode ser compreendido como criação positiva, mas como falta de perfeição em determinado ser. Nesse sentido, “o mal é a ausência da ordem devida” (AQUINO, 2010, p. 203). Tal perspectiva busca preservar a perfeição divina e explicar racionalmente as imperfeições presentes no mundo.
Além da dimensão metafísica, Aquino também aborda o problema do mal moral. Segundo o filósofo, o ser humano recebeu de Deus o livre-arbítrio, capacidade que permite realizar escolhas conscientes. Entretanto, o uso inadequado dessa liberdade conduz ao pecado e às ações moralmente más. Conforme afirma o autor, “o homem age mal quando se afasta voluntariamente do bem” (AQUINO, 2003, p. 145). Dessa forma, o mal moral decorre das decisões humanas e não da vontade divina.
A liberdade humana ocupa papel fundamental na explicação tomista acerca da existência do mal. Para Aquino, Deus criou seres livres porque a liberdade constitui um bem necessário para a realização moral da humanidade. Entretanto, essa liberdade implica a possibilidade de erro. Nesse sentido, “Deus permite certos males para que deles possa resultar um bem maior” (AQUINO, 2005, p. 214). Assim, o mal é permitido dentro da ordem providencial divina.
O chamado mal físico também recebe atenção no pensamento de Santo Tomás de Aquino. Sofrimentos, doenças e catástrofes naturais são compreendidos como consequências da limitação das criaturas materiais. Segundo o autor, “a corrupção de um ser contribui para a perfeição do todo” (AQUINO, 2010, p. 267). Portanto, mesmo as imperfeições presentes na natureza possuem função dentro da ordem universal estabelecida por Deus.
A filosofia tomista busca demonstrar que a existência do mal não anula a bondade divina. Pelo contrário, Aquino sustenta que Deus é capaz de retirar bens até mesmo das situações negativas. Nesse contexto, “a providência divina governa todas as coisas para um fim bom” (AQUINO, 2001, p. 188). Essa compreensão revela a confiança medieval na racionalidade da criação e na sabedoria divina.
Outro aspecto relevante refere-se à relação entre pecado e afastamento de Deus. Para Santo Tomás de Aquino, o pecado representa a ruptura da ordem moral estabelecida pela razão e pela lei divina. O autor afirma que “pecar é agir contra a reta razão” (AQUINO, 2003, p. 173). Assim, o mal moral não se reduz a um simples erro individual, mas constitui uma desordem espiritual que afeta a própria condição humana.
A análise tomista também destaca a importância das virtudes na superação do mal. Prudência, justiça, fortaleza e temperança são consideradas fundamentais para orientar corretamente as ações humanas. Segundo Aquino, “a virtude torna bom aquele que a possui” (AQUINO, 2003, p. 96). Dessa maneira, a prática das virtudes aproxima o indivíduo do bem e fortalece sua capacidade de agir moralmente.
A influência de Santo Tomás de Aquino ultrapassou o período medieval e permanece presente em debates filosóficos e teológicos contemporâneos. Seu pensamento contribui significativamente para discussões sobre ética, liberdade, sofrimento e dignidade humana. Conforme observa Gilson (2006, p. 84), “Tomás de Aquino realizou a mais completa síntese entre razão filosófica e fé cristã”. Essa característica explica a permanência de sua relevância intelectual.
Na contemporaneidade, o problema do mal continua sendo objeto de reflexão diante das guerras, desigualdades sociais e sofrimentos humanos. O pensamento tomista oferece instrumentos teóricos importantes para compreender essas questões sem abandonar a perspectiva religiosa. Como afirma Copleston (1993, p. 312), “a teoria tomista do mal preserva tanto a liberdade humana quanto a perfeição divina”. Assim, a filosofia de Aquino mantém atualidade no cenário filosófico moderno.
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Tema Central |
Conceito Principal |
Perspectiva Filosófica |
Perspectiva Teológica |
Conclusão do Capítulo |
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Introdução ao problema do mal |
Existência do mal |
Debate racional sobre o sofrimento |
Relação entre Deus e o mal |
O mal é questão central da filosofia e teologia |
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Contexto histórico de Santo Tomás |
Escolástica medieval |
Influência aristotélica |
Integração entre fé e razão |
Aquino conciliou filosofia e cristianismo |
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Natureza do mal |
Privação do bem |
Mal como ausência |
Deus não cria o mal |
O mal não possui substância própria |
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Metafísica tomista |
Ser e perfeição |
Tudo que existe é bom |
Deus como bem supremo |
O mal decorre da limitação das criaturas |
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Livre-arbítrio |
Liberdade humana |
Escolha racional |
Pecado e responsabilidade moral |
O mal moral nasce das ações humanas |
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Mal moral |
Pecado |
Afastamento da razão |
Ruptura da ordem divina |
O pecado afasta o homem do bem |
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Mal físico |
Sofrimento humano |
Limitações naturais |
Ordem providencial divina |
O sofrimento possui função no universo |
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Providência divina |
Bem maior |
Ordem racional do cosmos |
Deus permite males para gerar bens |
A providência governa todas as coisas |
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Virtudes e superação do mal |
Prudência e justiça |
Formação ética humana |
Caminho para Deus |
As virtudes conduzem ao bem |
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Atualidade do pensamento tomista |
Ética e existência |
Reflexão filosófica contemporânea |
Permanência da teologia cristã |
O pensamento de Aquino permanece atual |
Fonte: Autor, 2025
Portanto, Santo Tomás de Aquino desenvolveu uma interpretação racional e teológica capaz de explicar a existência do mal sem comprometer a bondade de Deus. Ao compreender o mal como privação do bem e consequência das limitações das criaturas e do livre-arbítrio humano, Aquino construiu uma síntese filosófica profundamente influente. Nesse sentido, “a ordem do universo manifesta a sabedoria divina” (AQUINO, 2005, p. 301), reafirmando a harmonia entre fé e razão proposta pelo pensamento tomista.
2.2 Fé, Razão e o Mal no Pensamento de Santo Tomás de Aquino
A relação entre fé, razão e o problema do mal no pensamento de Santo Tomás de Aquino constitui um dos pilares mais importantes da filosofia cristã medieval. Ao longo de sua obra, Aquino procurou demonstrar que a razão humana possui capacidade de compreender parcialmente as verdades divinas, sem que isso diminua a importância da fé. Nesse sentido, “a graça não destrói a natureza, mas a aperfeiçoa” (AQUINO, 2001, p. 79), indicando que fé e razão atuam de maneira complementar na busca pela verdade.
A influência de Santo Agostinho sobre Santo Tomás de Aquino é evidente na reflexão acerca do mal. Agostinho afirmava que “o mal não é uma substância, mas a privação do bem” (AGOSTINHO, 1999, p. 118), concepção posteriormente aprofundada por Aquino em sua metafísica do ser. Ambos os autores rejeitam a ideia de que o mal possua existência própria, preservando assim a bondade absoluta de Deus diante da realidade do sofrimento humano.
No campo filosófico, a contribuição de Aristóteles foi decisiva para o desenvolvimento do pensamento tomista. Aquino utilizou conceitos aristotélicos como ato e potência, essência e existência, para estruturar racionalmente sua explicação sobre o mal. Conforme afirma Aristóteles, “todo ser deseja naturalmente o bem” (ARISTÓTELES, 2002, p. 35). A partir dessa perspectiva, Aquino entende que o mal surge justamente quando há deficiência ou ausência dessa plenitude do bem.
A discussão entre fé e razão ganhou grande relevância durante a Idade Média, especialmente no contexto das universidades e da escolástica. Segundo Étienne Gilson, “Tomás de Aquino realizou a síntese mais equilibrada entre pensamento grego e doutrina cristã” (GILSON, 2006, p. 92). Essa síntese permitiu que a teologia fosse fortalecida pela filosofia, sem comprometer os fundamentos da fé cristã.
Outro autor importante para compreender o problema do mal é Boécio, cuja obra influenciou fortemente o pensamento medieval. Em A Consolação da Filosofia, Boécio argumenta que “o mal não pode prevalecer sobre o bem verdadeiro” (BOÉCIO, 2012, p. 67). Aquino desenvolve essa ideia ao afirmar que Deus permite determinados males porque deles pode resultar um bem maior dentro da ordem providencial do universo.
A relação entre liberdade humana e mal moral também foi aprofundada por René Descartes na modernidade. Embora distinto do pensamento tomista, Descartes reconhece que o erro humano decorre do uso inadequado da vontade. Segundo ele, “a vontade estende-se mais longe do que o entendimento” (DESCARTES, 1996, p. 81). Essa reflexão aproxima-se da concepção tomista segundo a qual o pecado nasce das escolhas humanas realizadas contra a razão e o bem.
No âmbito teológico, Joseph Ratzinger destaca a atualidade do pensamento de Santo Tomás de Aquino. Para Ratzinger, “fé e razão necessitam uma da outra para preservar sua verdadeira natureza” (RATZINGER, 2007, p. 54). Essa afirmação reforça a importância do pensamento tomista em tempos contemporâneos marcados pelo relativismo moral e pela crise de sentido existencial.
A questão do sofrimento humano também foi analisada por C.S. Lewis em sua obra O Problema do Sofrimento. Segundo Lewis, “Deus sussurra em nossos prazeres, mas grita em nossas dores” (LEWIS, 2006, p. 91). Essa interpretação dialoga com a perspectiva tomista de que o sofrimento pode possuir finalidade pedagógica e espiritual dentro da providência divina.
Na contemporaneidade, o filósofo Alasdair MacIntyre reconhece a relevância ética do pensamento de Aquino. Em sua análise, “a filosofia moral tomista continua oferecendo fundamentos sólidos para a compreensão das virtudes” (MACINTYRE, 2001, p. 174). Dessa maneira, a reflexão sobre o mal não permanece apenas no campo metafísico, mas também alcança a ética e a responsabilidade humana diante da sociedade.
A permanência do problema do mal na atualidade demonstra que as reflexões de Santo Tomás de Aquino continuam relevantes para a filosofia e a teologia. Guerras, desigualdades sociais, violência e sofrimento humano renovam constantemente os questionamentos sobre a existência do mal e a bondade divina. Nesse contexto, a proposta tomista apresenta uma interpretação racional capaz de harmonizar liberdade humana, providência divina e responsabilidade moral.
A análise da relação entre fé, razão e mal no pensamento de Santo Tomás de Aquino evidencia a profundidade de sua contribuição intelectual. Ao integrar filosofia aristotélica e teologia cristã, Aquino desenvolveu uma compreensão coerente da existência do mal sem negar a perfeição divina. Sua obra permanece como referência fundamental para os estudos filosóficos, éticos e teológicos, demonstrando que fé e razão podem caminhar juntas na busca pela verdade
2.3 A Concepção do Mal na Filosofia e Teologia de Santo Tomás de Aquino
A concepção do mal na filosofia e teologia de Santo Tomás de Aquino representa uma das mais importantes reflexões da tradição cristã ocidental. Influenciado pela metafísica aristotélica e pela patrística cristã, Aquino buscou compreender racionalmente a existência do mal sem comprometer a perfeição divina. Segundo o filósofo, “o mal não possui essência própria, sendo apenas privação do bem” (AQUINO, 2005, p. 121). Essa compreensão permitiu estabelecer uma visão coerente entre a bondade de Deus e a realidade das imperfeições humanas.
A influência de Santo Agostinho foi fundamental para a formulação tomista sobre o mal. Agostinho afirmava que “todas as coisas que existem são boas, e o mal consiste na corrupção dessa bondade” (AGOSTINHO, 1999, p. 143). Aquino aprofunda essa perspectiva ao inserir o conceito de privação dentro de sua metafísica do ser, demonstrando que o mal depende do bem para existir, não possuindo realidade independente.
Ao analisar a natureza do mal, Santo Tomás de Aquino recorre aos princípios filosóficos de Aristóteles. Para Aristóteles, “o bem é aquilo que todas as coisas desejam” (ARISTÓTELES, 2002, p. 17). A partir dessa definição, Aquino conclui que o mal surge quando há ausência da perfeição própria de determinado ser. Assim, a deficiência física, moral ou espiritual não constitui uma substância, mas uma limitação daquilo que deveria existir plenamente.
A filosofia tomista compreende Deus como o ser perfeito e absoluto, incapaz de produzir o mal diretamente. Nesse sentido, Aquino afirma que “Deus é a suma bondade e, portanto, não pode ser causa do mal” (AQUINO, 2001, p. 214). Essa concepção busca preservar a coerência da doutrina cristã diante dos questionamentos acerca do sofrimento humano e das injustiças presentes no mundo.
A questão do livre-arbítrio ocupa posição central na explicação tomista sobre o mal moral. Segundo Aquino, Deus concedeu liberdade ao ser humano para que suas ações possuíssem valor moral autêntico. Entretanto, “o pecado acontece quando a vontade se afasta da reta razão” (AQUINO, 2003, p. 167). Dessa forma, o mal moral não provém de Deus, mas das escolhas humanas realizadas em desacordo com o bem.
Essa relação entre liberdade e responsabilidade também foi analisada por René Descartes, que afirmava que “o erro depende do mau uso da liberdade humana” (DESCARTES, 1996, p. 89). Embora pertencente à modernidade, Descartes aproxima-se da perspectiva tomista ao reconhecer que o mal moral decorre do uso inadequado da vontade diante das possibilidades humanas de escolha.
Além do mal moral, Santo Tomás de Aquino também reflete sobre o mal físico, relacionado às dores, doenças e sofrimentos naturais. Segundo o autor, “a destruição de um ser contribui para a conservação da ordem universal” (AQUINO, 2010, p. 233). Assim, mesmo as imperfeições presentes na natureza fazem parte da harmonia geral do universo criado por Deus.
A providência divina constitui outro elemento essencial na compreensão tomista do mal. Aquino sustenta que Deus permite determinados males porque deles pode resultar um bem maior. Nesse contexto, “a providência divina dirige todas as coisas para o bem” (AQUINO, 2001, p. 301). Essa interpretação reforça a ideia de que o sofrimento humano não elimina a bondade nem a sabedoria divinas.
A análise de Boécio também contribui para essa discussão ao afirmar que “o mal não possui verdadeiro poder diante do bem” (BOÉCIO, 2012, p. 74). Aquino desenvolve essa concepção ao demonstrar que o mal é limitado e incapaz de destruir a ordem estabelecida por Deus. Dessa forma, o bem permanece superior e fundamental dentro da estrutura do universo.
No campo ético, Santo Tomás de Aquino enfatiza a importância das virtudes como instrumentos para combater o mal moral. Prudência, justiça, fortaleza e temperança orientam o indivíduo em direção ao bem e à perfeição humana. Segundo Aquino, “a virtude aperfeiçoa a potência da alma para o bem” (AQUINO, 2003, p. 102). Assim, a vida virtuosa representa um caminho de superação das inclinações desordenadas.
A atualidade do pensamento tomista é reconhecida por Alasdair MacIntyre, que afirma que “a tradição das virtudes em Tomás de Aquino continua essencial para a ética contemporânea” (MACINTYRE, 2001, p. 187). Em uma sociedade marcada pelo relativismo moral e pela crise de valores, a reflexão tomista oferece fundamentos sólidos para compreender responsabilidade, dignidade humana e justiça.
Da mesma forma, Joseph Ratzinger ressalta a relevância da relação entre fé e razão no pensamento de Aquino. Para Ratzinger, “a razão humana encontra sua plenitude quando iluminada pela fé” (RATZINGER, 2007, p. 63). Essa perspectiva reforça a importância da síntese tomista diante dos desafios filosóficos e espirituais da contemporaneidade.
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Autor |
Obra |
Ano |
Conceito sobre o Mal |
Perspectiva Filosófica |
Perspectiva Teológica |
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Santo Tomás de Aquino |
Suma Teológica |
2001 |
O mal é privação do bem |
Metafísica do ser |
Deus não é causa do mal |
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Santo Agostinho |
Confissões |
1999 |
O mal é corrupção da bondade |
Influência neoplatônica |
Defesa da bondade divina |
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Aristóteles |
Ética a Nicômaco |
2002 |
Todo ser busca o bem |
Ética e metafísica |
Base racional para Aquino |
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Boécio |
A Consolação da Filosofia |
2012 |
O mal não prevalece sobre o bem |
Filosofia moral |
Ordem providencial |
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René Descartes |
Meditações Metafísicas |
1996 |
O erro nasce do uso da vontade |
Liberdade racional |
Responsabilidade humana |
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Étienne Gilson |
A Filosofia na Idade Média |
2006 |
Síntese entre fé e razão |
Filosofia medieval |
Integração cristã |
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Joseph Ratzinger |
Introdução ao Cristianismo |
2007 |
Fé ilumina a razão |
Filosofia cristã |
Relação entre fé e verdade |
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Alasdair MacIntyre |
Depois da Virtude |
2001 |
Virtudes superam o mal moral |
Ética das virtudes |
Moral cristã contemporânea |
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C.S. Lewis |
O Problema do Sofrimento |
2006 |
O sofrimento possui sentido espiritual |
Filosofia da dor |
Crescimento espiritual |
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Santo Tomás de Aquino |
Sobre o Mal |
2010 |
O mal decorre da limitação humana |
Filosofia escolástica |
Harmonia entre fé e razão |
Fonte: Autor, 2026
Desta forma, a concepção do mal na filosofia e teologia de Santo Tomás de Aquino permanece como uma das interpretações mais influentes da tradição cristã. Ao compreender o mal como privação do bem, consequência das limitações das criaturas e resultado do livre-arbítrio humano, Aquino preserva a perfeição divina sem negar a realidade do sofrimento. Conforme conclui Étienne Gilson, “o tomismo representa a mais elevada síntese entre razão filosófica e verdade teológica” (GILSON, 2006, p. 118), demonstrando a permanência de sua importância para a filosofia e a teologia contemporâneas
3 METODOLOGIA
A presente pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, uma vez que foi desenvolvida a partir da análise de livros, artigos científicos, documentos acadêmicos e obras filosóficas relacionadas ao pensamento de Santo Tomás de Aquino sobre o problema do mal. Segundo Gil (2008, p. 50), “a pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. Dessa forma, a investigação buscou reunir diferentes contribuições teóricas capazes de fundamentar a análise filosófica e teológica proposta no estudo.
A abordagem utilizada na pesquisa é qualitativa, pois procura compreender os significados, conceitos e interpretações presentes nas obras analisadas. Nesse sentido, não há preocupação com dados estatísticos ou quantificações, mas sim com a interpretação crítica das ideias e dos argumentos filosóficos. Conforme afirma Minayo (2001, p. 21), “a pesquisa qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes”. Assim, a análise concentra-se na compreensão do pensamento tomista acerca da relação entre o mal, a liberdade humana e a perfeição divina.
O estudo possui também caráter descritivo e analítico, uma vez que busca apresentar e interpretar os principais conceitos relacionados à concepção do mal na filosofia e teologia medieval. Para Lakatos e Marconi (2010, p. 170), “a pesquisa descritiva delineia o que é e aborda também quatro aspectos: descrição, registro, análise e interpretação de fenômenos atuais”. Nesse contexto, foram descritas as principais ideias desenvolvidas por Santo Tomás de Aquino, estabelecendo relações com outros autores da tradição filosófica e teológica.
A coleta de dados ocorreu por meio da leitura e análise de obras clássicas de Santo Tomás de Aquino, especialmente textos relacionados à metafísica, ética e teologia, além de contribuições de comentadores contemporâneos. De acordo com Severino (2016, p. 131), “na pesquisa bibliográfica, o pesquisador trabalha a partir das contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos textos”. Dessa maneira, foram selecionadas referências consideradas relevantes para a compreensão do problema do mal e da relação entre fé e razão no pensamento tomista.
Além das obras de Santo Tomás de Aquino, a pesquisa também dialoga com autores clássicos e contemporâneos que discutem filosofia medieval, ética e teologia cristã. A utilização de diferentes referenciais teóricos permite ampliar a compreensão do tema e promover uma análise crítica mais aprofundada. Segundo Demo (2000, p. 37), “pesquisar é construir conhecimento com autonomia crítica”. Assim, a investigação procurou não apenas apresentar conceitos, mas também refletir sobre a atualidade e a relevância do pensamento tomista diante das problemáticas contemporâneas.
A metodologia adotada busca garantir coerência entre os objetivos da pesquisa e os procedimentos utilizados para sua realização. A combinação entre pesquisa bibliográfica, abordagem qualitativa e análise interpretativa possibilita uma compreensão mais ampla da concepção do mal em Santo Tomás de Aquino. Conforme destaca Fonseca (2002, p. 32), “o método científico é um conjunto de procedimentos intelectuais e técnicos utilizados para atingir o conhecimento”. Portanto, os caminhos metodológicos escolhidos contribuíram para o desenvolvimento de uma análise fundamentada, crítica e coerente com a proposta do estudo.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Para Santo Tomás de Aquino, o problema do mal não pode ser compreendido como algo criado diretamente por Deus ou como uma força independente existente no universo. Em sua perspectiva filosófica e teológica, o mal não possui essência própria, sendo entendido como ausência ou privação do bem. Segundo Aquino, “o mal é a privação de um bem devido” (AQUINO, 2005, p. 121). Essa interpretação procura preservar a ideia de um Deus perfeito e sumamente bom, ao mesmo tempo em que busca explicar racionalmente a presença do sofrimento e das imperfeições no mundo.
Essa concepção tomista dialoga diretamente com o pensamento de Santo Agostinho, que já afirmava que o mal não poderia ser considerado uma substância criada por Deus. Para Agostinho, “todas as coisas que existem são boas; o mal é apenas a corrupção do bem” (AGOSTINHO, 1999, p. 143). Aquino aprofunda essa reflexão ao utilizar fundamentos metafísicos mais sistemáticos, demonstrando que tudo aquilo que existe participa, ainda que de maneira limitada, da bondade divina.
Ao desenvolver sua teoria sobre o mal, Santo Tomás de Aquino também recebe forte influência de Aristóteles. O filósofo grego afirmava que “todo ser tende naturalmente ao bem” (ARISTÓTELES, 2002, p. 17), ideia que serviu de base para a metafísica tomista. Assim, Aquino entende que o mal surge justamente quando essa tendência ao bem encontra limitações, falhas ou ausências dentro da realidade criada.
Nesse contexto, a limitação das criaturas ocupa papel essencial na explicação do mal. Para Aquino, somente Deus possui perfeição absoluta, enquanto todos os demais seres apresentam imperfeições naturais decorrentes de sua condição criada. Segundo o autor, “nenhuma criatura possui a plenitude do ser divino” (AQUINO, 2001, p. 214). Dessa forma, o mal aparece como consequência inevitável da finitude das criaturas e não como resultado de uma falha na criação divina.
A questão do livre-arbítrio humano amplia ainda mais essa reflexão. Santo Tomás de Aquino afirma que Deus concedeu liberdade ao ser humano para que suas ações tivessem valor moral verdadeiro. Contudo, essa liberdade também permite escolhas equivocadas. Conforme escreve Aquino, “o homem peca quando voluntariamente se afasta da reta razão” (AQUINO, 2003, p. 167). Assim, o mal moral nasce da utilização inadequada da liberdade humana diante do bem.
Essa interpretação também encontra aproximação com as reflexões de René Descartes, especialmente ao tratar da responsabilidade humana diante do erro. Descartes afirmava que “o erro resulta do uso desordenado da vontade” (DESCARTES, 1996, p. 89). Embora pertencentes a períodos históricos distintos, ambos os autores reconhecem que a liberdade humana é elemento fundamental para compreender a origem do mal moral.
Além do mal moral, Aquino também procura explicar o sofrimento físico presente na realidade humana. Doenças, dores e perdas fazem parte da condição limitada das criaturas materiais. Segundo ele, “a corrupção de uma coisa contribui para a geração de outra” (AQUINO, 2010, p. 233). Isso significa que até mesmo as imperfeições naturais participam da ordem universal estabelecida por Deus, ainda que muitas vezes sejam difíceis de compreender sob a perspectiva humana.
Ao tratar da providência divina, Santo Tomás de Aquino sustenta que Deus permite determinados males porque deles podem surgir bens maiores. Nesse ponto, o pensamento tomista aproxima-se das reflexões de Boécio, que afirmava que “o mal jamais pode vencer plenamente o bem” (BOÉCIO, 2012, p. 74). Dessa forma, o sofrimento e as dificuldades humanas não anulam a presença da bondade divina na criação.
A permanência dessas reflexões ao longo dos séculos demonstra a profundidade do pensamento tomista. Étienne Gilson reconhece que “Tomás de Aquino realizou a mais sólida síntese entre razão e fé da tradição medieval” (GILSON, 2006, p. 118). Essa capacidade de unir filosofia e teologia permite que suas ideias continuem relevantes diante das crises morais, sociais e existenciais da contemporaneidade.
Portanto, a concepção do mal em Santo Tomás de Aquino apresenta uma interpretação profundamente racional e humana acerca das imperfeições do mundo. Ao compreender o mal como privação do bem, decorrente das limitações das criaturas e do livre-arbítrio humano, Aquino preserva a perfeição divina sem ignorar o sofrimento presente na existência humana. Como destaca Joseph Ratzinger, “fé e razão caminham juntas na busca da verdade” (RATZINGER, 2007, p. 63), reafirmando a atualidade e relevância do pensamento tomista para os debates filosóficos e teológicos atuais.
5 CONCLUSÃO
A reflexão sobre o problema do mal demonstra a profundidade da filosofia tomista ao buscar conciliar razão e fé na compreensão da existência humana. Ao analisar o mal não como uma realidade independente, mas como ausência do bem, torna-se possível compreender que as imperfeições presentes no mundo não anulam a bondade da criação. Essa interpretação oferece uma visão equilibrada entre a experiência humana do sofrimento e a ideia de perfeição divina.
A compreensão do mal como consequência das limitações das criaturas permite perceber que a finitude faz parte da própria condição humana. O sofrimento, as falhas e as fragilidades não surgem como elementos desconectados da realidade, mas como aspectos inerentes à existência criada. Dessa forma, o pensamento tomista procura explicar racionalmente aquilo que muitas vezes é percebido apenas como mistério ou contradição.
Outro aspecto importante refere-se ao livre-arbítrio humano. A liberdade concedida ao ser humano possibilita escolhas conscientes, mas também abre espaço para erros, injustiças e ações moralmente negativas. Assim, o mal moral não é compreendido como imposição divina, mas como resultado das decisões humanas diante do bem e da razão. Essa perspectiva reforça a responsabilidade ética presente nas relações humanas e sociais.
Além disso, a filosofia tomista evidencia que fé e razão não devem ser vistas como opostas, mas como caminhos complementares na busca pela verdade. A utilização da razão filosófica para compreender questões teológicas demonstra a importância do pensamento crítico dentro da tradição cristã. Essa integração entre reflexão racional e experiência religiosa contribui para um entendimento mais profundo da condição humana e do sentido da existência.
A atualidade dessa reflexão permanece evidente diante dos desafios contemporâneos marcados pelo sofrimento, pela violência e pelas crises existenciais. Mesmo em contextos históricos diferentes, o problema do mal continua despertando questionamentos sobre justiça, liberdade e sentido da vida. Nesse cenário, a interpretação tomista oferece fundamentos filosóficos e éticos que ainda contribuem significativamente para o debate atual.
Assimsendo, a filosofia tomista apresenta uma interpretação coerente e profunda acerca do problema do mal, harmonizando a existência das imperfeições humanas com a ideia de perfeição divina. Ao unir reflexão filosófica e perspectiva teológica, essa concepção mantém a coerência entre fé e razão, oferecendo uma compreensão ampla sobre o sofrimento, a liberdade humana e a busca pelo bem.
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[1] Licenciatura Plena em Filosofia pela Universidade Metropolitana de Santos/UNIMES; Graduação em Odontologia pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP); Cirurgião Dentista.
